Eu estava indo no São João da escola, eu ia ser “a marido” de uma moça que tava sem par na quadrilha e eu sabia que ela tinha marido dela de verdade, né? Aí eu falei: "Olhe, eu gosto de ficar na festa até amanhecer e ela não vai aguentar o embalo", aí eu cheguei na loja de uma senhora que vende tecido Dona Neze e tinha um cabo de vassoura lá no canto, aí eu falei: “Já sei vou montada de jegue, me arranja essa vassoura e um pano desse daqui que era de enrolar tecido, né? Que eu vou fazer meu jegue”, aí cheguei passei o pano, coloquei um... Não sei nem como eu coloquei olhos lá, eu acho que eu devo ter bordado alguma coisa...

E aí fui pra festa, dancei até de manhã, aí eu já virei o centro da atenção da festa o que era pra ser só o rabo da fila do negócio, eu que dei a entrada do São João e fiquei a noite toda chamando o povo pra dançar com Fugênço...

Não, até então ele não era Fugênço, não... Ele era o jegue, o nome dele mesmo nasceu quando foram fazer a gravação da Ana Maria Braga... Que ele tinha que ter nome, né? E todo mundo ficou “Ah, tem que levar o jegue... Tem que levar o jegue”... Aí de repente achei um papelão lá, peguei um piloto e escrevi: “É Fugenço!” Nasceu na hora e aí ele ganhou o mundo, agora tudo que é São João ele vai, carnaval ele vai, Emílio não pode ouvir falar de ter alguma festa, de cultura... “Leva Fugênço”... Até parece que Fugênço quer tá em todas, ele é meu “cabrerinho”! Ele fica no cantinho ali, ensacado pra não pegar poeira, ele tá vestindo sua nova roupa chamando o São João...

Minha mãe sempre foi muito festeira todas as ocasiões ela gostava de fazer enfeites, muito bolos e tal... E no São João especialmente, pelo fato dela ser uma pessoa da roça, ela se empenhava bem mais, sempre fazia bandeirolagem, daí uma certa vez ela fez um jeguinho... e lançou esse jegue, não tinha dono, era pra ir pras festas mesmo, eu pegava, meu irmão pegava... e a gente saia brincando pelas ruas e esse jegue sempre teve na história...

Ele é filho, filho não se vende! É uma criação poderosa, confessa, ele não é lindo? É mais animado com ele, deve ter uns treze anos mais ou menos, tá pensando que jegue não tem alma, não é? Ele sente falta, ele sente meu cheiro... Inclusive esses dias, eu tava dizendo que se eu morresse que Fugênço é pra ir pro meu enterro, mas não enterrasse Fugênço pelo amor de Deus, traz e pendura ele aí, longe de cupim, né? Pra não comer...

Ele é eterno o que é que vai acabar num Fugênço desse, né?

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Colectivo Infinitos Monos 2015 by Javier Cruz