O espelho, ele vem da época do casamento, da família e passou esse trajeto todo comigo e veio pra cá pra Chapada Diamantina e sempre eu dou uma renovada na moldura dele. É um objeto que me acompanha há bastante tempo e que me faz refletir muito sobre as coisas que aconteceram aqui comigo, que eu vivenciei aqui.

O quebradinho do espelho, aquilo ali foi uma das mudanças, num trajeto ele quebrou e uma forma incrível que estava procurando na época um pedaço de espelho que fosse meio oval e aquele espelho era oval e quebrou uma ponta, era exato o que eu estava precisando para fazer o trabalho. Aí o pessoal dizia: "Espelho quebrado dá azar, não pode guardar espelho quebrado" e eu falei: "Pois eu vou fazer o contrário agora, todo caco de espelho que eu ver agora eu vou bater barro na parede e vou colar os cacos de espelho." E aí começou a formar uma coisa assim diferente porque, eu acendia uma vela aí o espelho refletia mais claridade, aí eu comecei nessa viagem de fazer trabalho com espelho e barro.

Veio daí esse movimento de eu procurar e que esse pedaço se fragilizou, se quebrou das coisas que se quebraram também na minha vida na época vai junto. Eu sei que os fragmentos... eu consegui guardar das histórias, das coisas que se passaram no Ventura que foi na verdade uma reconstrução em mosaico mesmo, porque nós não tínhamos um apoio de nada, de lugar nenhum, de órgão nenhum.

Eram as crianças, 18 crianças e eu, então eu tinha que reinventar e o mosaico foi uma coisa que me proporcionou e criando sem aquele compromisso de ter que terminar, eu tinha muita preocupação com essa coisa: "Eu tenho que terminar um trabalho, eu tenho que começar e terminar" e a minha alma é muito geminiana, eu não sou muito disso, pra a coisa começou, se a gente semeou não importa se sou eu ou quem é a geração que vão colher. Mas foi uma coisa que aconteceu, fiz assim da forma que eu podia que foi com caco de telha, carvão que a gente aprendeu a escrever.

O espelho teve uma época que estava moldurado, estava todo pintado de branco e com conchinhas do mar colorida, foram várias épocas assim que ele ia passando, conforme ele ia modificando sempre era a moldura a principal coisa. Aí uma época ele ficou sendo um mostruário, um painel, eu botei algumas fotos, algumas coisas nele. Ele tem mais de 30 anos que está comigo.

Eu tenho muitas fotos desse espelho, na época que eu estava grávida, tinha os filhos pequenos, eu tenho fotos dele em outras épocas.

Lembro dos filhos pequenos, de Salvador, eu morava no Rio Vermelho, lembra a Mariquita, nessa época. Eu morava no largo da Mariquita, ali de frente para o Mercado do Peixe, tenho as fotos do Mercado velho dali do Rio Vermelho nessa época. Ele ficava na parede que refletia o mar do Rio Vermelho.

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Colectivo Infinitos Monos 2015 by Javier Cruz