Aqui é a renda de bilro, feita com palha de banana almofada, tem os bilros que são esses coquinhos com os cabinhos, que a gente tem que fazer hoje, porque não encontra mais, geralmente era passada de rendeira para rendeira, de família. Aqui tem o papelão que a gente pode tirar da própria renda, ou faz passando também com os bilros, o próprio papelão picado para fazer outro papelão e nesse papelão tem como um gabarito ensinando as coordenadas para fazer o próximo movimento. A renda, no caso dessa renda que é de “aderesinhos”, ela é repetições dos desenhos.

Muito se perdeu das rendas, porque os papelões se você fura mais, acaba que não encaixa e a pessoa desiste de fazer a renda porque perde a diversão, né? quando é uma rendeira experiente, dá uma embromadinha, ela passa por cima é consegue juntar depois.

Eu particularmente acho que a renda de bilro é a joia das costuras, né? é uma coisa que eu acho que não deve se perder, eu não tinha conhecimento de tanta beleza, aí eu fui na internet a buscar e vi muita coisa, muita criatividade. Infelizmente a gente está perdendo essa cultura, por causa das dificuldades... da delicadeza, as pessoas hoje não tem esse tempo.

Eu tive o privilegio de conhecer a Dona Deja, acho que foi a última rendeira aqui, que ainda fazia mesmo, depois dela, eu coloquei algumas rendeiras antigas para fazer, ainda que fosse um tempo, mas foram poucas ainda. Dona Deja foi uma senhorinha que já estava com 80 e poucos anos, quando eu aprendi , há 13 ou 14 anos, e um dia passei e ela estava fazendo renda e eu: “Poxa, Dona Deja, a senhora está fazendo renda” e ela: “É, eu nunca deixei de fazer, não”, “Ah, me ensina, me ensina”. Porque eu já tinha almofada, né? minha mãe tinha feito para mim, eu veio de uma família de rendeira, minha avó era rendeira, minha bisavó era rendeira.

Eu acho que é um transporte do passado para o presente, futuro, acho que a renda é uma ponte de ligação: passado, presente... hoje tentando guardar essa memória, né? eu ficaria muito triste se eu me visse depois de morta tendo sido inútil, por isso que eu tenho uma urgência de passar isso para outras pessoas, outras meninas.

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Colectivo Infinitos Monos 2015 by Javier Cruz