Meu nome é Carlos, Carlos Formiga, isso aqui é uma forma de fazer adobe. Adobe é o tijolo do sertanejo, o tijolo do nordestino. Tem o adobe, tem o adobinho e tem o adobão, esse é o adobão. Foi com essa forma do tijolo, que nós construímos essa casa, ela foi feita encima do alicerce da casa antiga, uma casa que existia desde os anos 40, os anos 30, né? e em 1980 nós começamos a outra construção com adobe que é o tijolo feito a base de terra e água, tem que ser uma terra que tenha uma liga boa para você misturar ela com a água.

E amassando com os pés, você vai amassando com os pés e depois de certo tempo você vê que ela já está no ponto, você traz os bolos de terra para essa forma, né? preenche esse espaço da forma, em um terreno plano, se passa a mão ou um pedaço de madeira para ela ficar certinha e você tira dessa forma e aí o adobe fica aí e isso normalmente se faz em carreiras para ficar tudo certinho numa área aberta onde ele vai secar.

Um adobe desse aqui deve pesar uns seis quilos, cinco quilos, né? um dos problemas que se tem para construir uma casa, desse tamanho, de adobão, é justamente você tentar levantar ele para o pedreiro, para a pessoa que está montando, mas é uma construção muito legal para o interior porque ele mantem a temperatura interna, quando está muito quente fora ele mantem a casa fresquinha e quando está frio também mantem quente.

Eu sou nativo daqui do Capão, nasci aqui e fui para São Paulo fiquei muito tempo lá e quando estava se fazendo esse adobe para fazer a casa, a primeira lembrança que eu tenho dessa forma, é que eu fiquei assustado com o tamanho, porque eu vi que a gente ia trabalhar com tijolos. Eu era um nordestino, baiano, um capãozeiro semi-paulista, fui para São Paulo com oito, voltei com trinta anos.

Mas depois do susto vem a diversão, porque era legal você estar pisando a lama, pisando na terra para misturar ela. Na realidade, uma das coisas legais que tem de fazer uma casa de adobe é que é uma festa, os empregados vão amassando, outros vão carregando água, normalmente as mulheres estão cozinhando aipim e fazendo café, carregando água, ajudando... ai os homens fazendo o serviço mais pesado e assim, normalmente se faz isso em multirão.

Na minha mão ela está desde 1980, agora eu não tenho certeza se ela já tinha feito adobe para outras casas, porque normalmente é assim, você tem uma forma aí eu vou fazer a minha casa e depois eu empresto para uma outra pessoa, para outra pessoa... porque é uma coisa que não se desgasta com o tempo, a madeira tem que ser uma madeira forte. Ela ajudou a construir pelo menos umas cinco casas, além da minha.

Na realidade porque eu guardo, porque de repente amanhã eu poderia precisar, porque hoje é aquela coisa, nós estamos especialmente na questão de preservação desse planeta, a gente está repetindo muito o que os antigos faziam, então de repente as pessoas estão começando a se alimentar melhor, produzindo orgânico, as pessoas estão começando a se tocar com uma casa de adobe é muito melhor para o planeta como um todo, do que uma casa de cimento ou de alvenaria, sabe? Então tem muita gente hoje que está refazendo esse caminho que a gente fez lá atrás, que os antepassados fez, então de repente eu poderia precisar, mas na realidade ela vai acabar ficando como uma peça de decoração mesmo, já tinha pensando nisso, de repente uma estantezinha de livros ali, com ela arrumadinha, bonitinha, dar um trato nela, mas ela estava meio esquecida ali no canto, eu estava pensando essa semana dar um trato nela, ai chegaram vocês e eu falei: "Bom, ai está ela ai!"

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